Muita Banha, Muita baixaria
Desci envolvido pela curiosidade mórbida. Tava de saco cheio. Já tinha lido o suficiente. Meu vídeo cassete tava quebrado e não tinha nada na tv que valesse. O sono não vinha por causa do excesso de nicotina e álcool. Não tinha grana pra puta. Embora morasse num pardieiro em que elas eram maioria, não conseguia trepar com nenhuma de graça. Ali ninguém se mexia por menos de 15 paus.
Um saco preto arrancado às pressas do grande depósito de lixo de todos os moradores da Sebastião Pereira servia pra ocultar a bizarrice de um corpo mutilado por uma garrafa de conhaque quebrada. Apenas um tufo de cabelos estava à mostra. Era quase uma montanha de carniça. As ratazanas saíam das tocas e olhavam a cena, como se estivessem presenciando um banquete. Só não se aproximavam por causa do volume de curiosos que estava em volta do corpo.
Naquele lugar, o mais podrão da Santa Cecília, não fazia diferença se um morto fosse enterrado ou jogado no triturador de um caminhão de lixo.
Provavelmente o presuntão morava ali no 221 da Sebastião. No pior pardieiro de todos, onde o negócio das putas é trepar no atacado. Onde o cheiro de porra, mijo e perfume barato predominam. Onde só as velas de macumba podem ser a salvação daquelas almas com poucos motivos pra existir. Ali é o lugar das meninas perdedoras e dos travecos fim de linha, acabados no crack, malhando um real pra pinga, fazendo chupeta em banheiros de cinemas pornô. Arrastando um tipo de vida que até o diabo recusa.
Cheguei perto do saco. Os policiais não tavam dando a mínima pro presuntão. Já estavam acostumados com aquele tipo de coisa. Se divertiam contando uns aos outros sobre os crimes mais bizarros possíveis. Como o de um viado que decepou o pau do amante e enfiou no próprio intestino e outro de uma velhinha Testemunha de Jeová, que ao bater na porta de um cortiço abarrotado de nóias fazendo a cabeça não só foi obrigada a fumar uma pedra inteira como teve seu cu transformado numa couve flor por uma dúzia de negros bem dotados. Eles contavam e se divertiam e não havia outro modo de conviver com aquela podridão toda sem um bocado de sadismo. Aproveitei o momento recreativo dos Homens Da Lei e levantei a borda do saco. O que vi foi Black Jones. A famosa traveca negra de peruca loira, também conhecida como Fofão. A sensação dos catadores de papel, dos pingaiadas e dos mendigos da área. Uma gorducha de quase um metro e noventa por cento e quarenta quilos. Com um rabo entupido de porra. A rainha dos travecos da Santa Cecília era cento e quarenta quilos de banha com um corte profundo na jugular e um pauzão de quase vinte cinco centímetros decepado e enfiado na própria boca.
Quando o resto dos curiosos percebeu a cena, piadas e trocas de acusações sobre quem e como fulano tinha vivido suas aventuras eróticas com a Black rolaram soltos. As cabeças esquentavam e as tragadas na garrafa de pinga que rodava a banca aumentavam de acordo com a animosidade. Uma mistura de sadismo e frustração. Menos de dez minutos após o corpo ser identificado pelos seus amantes, não restava ninguém por perto, provavelmente o criminoso poderia ser um deles. E mesmo que não fosse, todo mundo ali já tinha nascido culpado por alguma coisa.
Os carniceiros do serviço público desceram e olharam em volta. Acenderam um baseado e começaram a rir pro corpo da Black. O careca com os dentes podres disse: “Muita banha, muita baixaria”. “Deixa pras ratazanas, olha como elas tão com fome” - emendou o urubu cabeludo com o nariz cheio de pó.
Escrito por Blue Velvet às 16h29
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