TOP CINE
Uma das histórias que mais me surpreendeu foi a do cara que teve seu pau decepado num cinema pornográfico da São João quando estava no auge da sua punheta. Eu já entrei num deles algumas vezes. Às vezes ia procurar trabalho no centro. Dava rolês durante toda a manhã. Enfrentava filas na porta de uma agência de empregos, junto com outros office-boys. Preenchia fichas. Batia nas metalúrgicas tentando trampar como desenhista técnico. Batia um Hot Dog de Cinqüenta na República, virava uma lata de cerveja. Pensava no pesadelo de conseguir um daqueles trampos inúteis. Eles não me serviriam pra nada. Olhava pro rabo das putas, pro rabo das travecas da Rego Freitas indo de sainha pro mercado. Depois me direcionava pra São João. Cine barato, duas salas, uma passando filmes do Bruce Lee e outra só de putaria. Pedia ingresso, pagava com o troco do lanche. O cara da bilheteria me dava um pro Bruce. Eu reclamava, reivindicava o direito de ver as putas na tela grande fazendo a alegria dos homens. Muitas vezes eu o convencia que precisava ver aquilo. Trocavam meu ingresso e eu ia pra dentro descarregar meus culhões. Aquele cheiro de cândida impregnado na sala. Outras vezes tinha que me contentar com o grande lutador. Era legal também, eram diversões diferentes. De qualquer maneira voltava pra casa satisfeito. Antes passava nas Grandes Galerias e voltava pra casa mais satisfeito ainda, com um disco do Sabbath debaixo do braço.
Nesse tempo eu era jornaleiro. Ainda existia o Notícias Populares. E eu classificava a clientela pelo que liam. Simpatizava particularmente com os varredores de rua. Se fosse dia de varreção, o NP acabava bem cedo. Se não era, encalhava. A banca ficava ali na entrada da USP, e a galera informada não lia esse tipo de bobagens. Sempre separava um pro final da tarde, quando as coisas ficavam mais calmas. Separava a mulher do pôster. Teve uma época que saía uma por semana. Uma gostosa pra diversão do leitor. Lia minuciosamente as páginas de crime. E numa delas, tava lá: “Pedreiro perde o bilau no escurinho do cinema.” Aquilo me intrigou, fui direto pra matéria. Não era brincadeira, tava lá o nome do cinema e tudo. Era o mesmo que eu freqüentava na São João. Era comum que um cara entrasse lá, se mocozasse num canto e se bronhasse até ver estrelas. O cinema era feito pra isso, pra que um cara com os ovos cheios descarregasse todas suas vontades ali naquele lugar. Mas nesse dia foi diferente, o cara tava lá, à vontade. Mais algum chapa, porque foi um amigo do decepado que tirou a alegria do sujeito. O carrasco pediu que seu amigo parasse com aquilo. Que batesse punheta em casa. Que ali era um lugar público e ele não admitia que batessem uma bronha ao seu lado. Daí o decepado disse que se ele quisesse que batesse uma também e que parasse de incomodar. Não restou outra alternativa pro carrasco ao não ser arrancar sua faca da mochila e acabar com a festa do punheteiro.
Eu, que era um freqüentador daquele lugar, que já tinha batido as minhas por lá na hora do almoço, sempre achei que não havia nenhum problema. Achei que ali fosse pra isso mesmo. Sabia que punheta não deve ser tocada na frente de quem não está interessada em ver. Uma vez um vendedor e aficcionado por filmes pornográficos tentou isso diante de uma moça nas ruas de Campinas e por causa desse feito responde um processo até hoje. Mas isso é assunto pra outra história.
Quando pivete sentia vontade de me punhetar durante a missa. Aquilo me atazanava. Ali era o lugar que mais dava vontade. Sempre tinha uma piranhuda pecadora no banco da frente. Daquelas que possivelmente estão chifrando o marido católico e bem sucedido. E os dois vão à missa por motivos diferentes. O cara pra agradecer a Deus sua prosperidade, agradecer a força que Deus lhe dá pra que ele continue puxando o saco do diretor da empresa. E a moça tentando se redimir de tamanha putaria, tentando se redimir dos cornos que ela bota naquele puxa saco que pretende ficar rico antes dos quarenta.
Sabia que se eu fizesse uma putaria dessas na igreja, seria ridicularizado. Apanharia um bocado em casa. Então não fazia. Guardava o caldo pra quando eu pudesse me divertir nos cinemas pornográficos. Olhando putas que falassem: “Se masturbem olhando pra mim, eu sou uma vaca, uma puta de verdade.” É claro que se eu tivesse coragem de me punhetar escondido olhando pra putona do banco da frente seria mais excitante. A quantidade de porra também seria bem mais satisfatória. Mas era impossível. Ao mesmo tempo, fazer aquilo no cinema da São João era quase uma banalidade, trivial. Até o dia da decepa. Daí em diante a coisa ficou perigosa. O carrasco inventou uma nova lei ali dentro, onde todos os punheteiros corriam perigo. Nunca mais apareci por lá, me contentava com as meninas da mini fiesta enfeitando meu banheiro. Arrancava as páginas e colava com cuspe nas paredes, todas elas ali, olhando pra mim enquanto eu tinha meus momentos de luxúria.
Escrito por Blue Velvet às 20h30
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