As Vadias do James Brown


AS MENINAS DO VHS

 

 

Quando eu tinha dezessete anos trabalhava numa vídeo locadora. Era o primeiro trampo em que eu ralava de verdade. Não tinha trégua. Eram seis horas pagando os pecados. Meus patrões eram, dentro do limite do que pode ser chamado de bacana, caras legais. Jogavam o lado podrão, quase escravagista, pros encarregados. E eles eram todos, menos eu.

O Cláudio era um piadista e seu irmão, do qual não me recordo o nome, era o mais podrão. Os dois eram pornógrafos por natureza, custasse o que custasse contratavam uma garota que lembrava alguma atriz pornô. Ela invariavelmente ganhava o cargo de gerente. O salário da garota nunca chegava a ser o que uma puta do seu naipe ganharia na noite, mas as garotas que eles contratavam pro cargo nunca tinham útero pra botar a bucetinha à prova de um contracheque. Ali era o estágio de futuras putinhas. As surubas entre os dois cafajestes de carteirinha com a pequena patroa era coisa notável, ninguém disfarçava, muito menos ela.

O único cara trabalhando lá era eu. Então a sessão pornográfica ficava nas minhas mãos. Trabalhava de pau duro. Pequenos insetos quase microscópicos andavam entre as fitas de VHS e causavam coceira nas minhas mãos. Deviam ser incubus materializados, frutos da punheta e da pressa em devolver as fitas a tempo.

Os punheteiros invariavelmente andavam de mochila nas costas. Sempre iam sozinhos e carregavam no mínimo meia dúzia de fitas por dia. Jamais me aporrinhavam perguntando o que eu achava desse ou daquele filme. Tinham lá suas paixões na prateleira. Naquele tempo a Savannah era a musa da maioria. Eu ficava com a Angela Summers e com a Erica Bella. Sempre terminava minhas noites com elas. Por elas, meu trabalho valia a pena.

Às vezes algum cara reclamava que tava viciado naquilo. Que aquelas mulheres drenavam a maior parte do salário deles. Eu retrucava: “Para de levar essas fitas durante uma semana, vê o que sobra de grana e paga uma puta legal.” Mas eles diziam novamente: “Não dá, a puta é uma só e cada fita dessas tem várias, no final de semana eu já saí com um harém inteiro.” Não havia mais o que dizer, talvez o convívio  com as mulheres do VHS fosse bem mais amistoso, ainda mais fácil do que conviver por uma hora com uma puta e encarar um orgasmo fingido.

O mais bizarro foi uma família de americanos com dois filhos nascidos aqui. Uma menina entre quinze e dezesseis anos e um garoto de uns treze. O pai dos garotos, um velho bigato, na maior cara de pau, teve “as manha” de alugar um filme chamado “Sexo em Família” E deu pra garota devolver. E ela foi, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Até os punheteiros de plantão que estavam na fila de devolução ficaram intimidados. Dei baixa, olhando nos olhos da menina, e nada. Nenhum sinal de timidez..

Voltava pro meu trabalho nas prateleiras. Setenta por cento dos filmes alugados eram pornográficos. Meu trabalho era árduo, mas eu sempre estava muito bem acompanhado. Daí que a gerentinha gostosa chegou junto de mim e disse: “Vê se organiza isso em vez de bater punheta.” Eu tava realmente de pau duro, não dava pra disfarçar. E na verdade não fazia a mínima questão. Era comum que garotos da minha idade, ao beijar uma menina, disfarçassem o pau duro. No meu caso era o contrário, fazia questão de esfregar. E não lembro de nenhuma ter reclamado. “Se você der essa bunda gostosa pra mim eu nem preciso bater punheta.” Ela ria com gosto. Era uma biscate segura. “Esse rabão tem dono, só dou pro meu namorado e aqueles dois ali.” Aqueles dois ali eram meus patrões, os caras tinham sorte.

Eu lembro que o piadista uma vez me falou que abriu aquele negócio fazendo cópias de filmes pornôs. Copiava e vendia. Era um garoto fissurado em filmes pornograficos, batia muita punheta e decidiu ganhar algum com aquilo. O negócio havia expandido e agora ele comia atrizes pornôs, ou algo que se parecesse muito com elas. Agora ele ganhava a vida em cima dos punheteiros que alugavam as fitas. E ganhava a vida em cima dos punheteiros que arrumavam as estantes pornográficas.

Eu olhava pra cara daquelas putinhas dentro do VHS e elas pareciam rir de mim. Os incubus materializados passeavam pelas minhas mãos causando enorme coceira e eu continuava apaixonado pela Ângela Summers.



Escrito por Blue Velvet às 21h48
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