Este é um dos primeiros textos desse blog. E é claro que é ficcional, ou seja, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. E essa coincidência só existe porque eu andei muito pelo Bixiga nos anos noventa, andei por ali em madrugadas embriagadas e sem rumo. E uma mulher que talvez se chamasse Marcinha, porque eu sou péssimo pra guardar nomes, era do mesmo naipe. Íamos pra lugar nenhum e não fazíamos nada digno de nota. Éramos losers desencanados varando noites por apostas mixas. Tínhamos uma esquina na Santo Antônio, e ali éramos uma espécie de despacho. Dávamos azar, muito azar pra quem passasse por nós. Era apenas uma forma barata de diversão, que na maioria das noites funcionava a nossa maneira. Depois de alguns anos eu encontrei ela novamente, o tempo tinha avacalhado com seu corpo, com seu rosto, com seu cérebro. Lembro dela me acompanhando até o ponto de ônibus, numa esperança de que fosse acontecer alguma coisa legal. Não ia acontecer mais nada, ao não ser o fato que eu daria linha dali o mais rápido possível. Toda noite tem seu fim, ainda que seja às três horas da tarde, mas pra Marcinha as coisas sempre pareciam intermináveis e isso tinha a ver com o fato dela jamais ter pra onde voltar. Eu ainda acho que ela se chamava Marcinha, e talvez as coisas tenham acontecido mais ou menos como segue abaixo. Ou talvez eu tenha dormido num balcão de bar e tenha tido um longo pesadelo.
Marcinha 66
Há um puta tempo atrás. Uma boca abastecida com o que havia de pior na adega me engolia. Eu tentava oferecer o que restava do seu corpo por uma bagatela de vinte paus, ali nas imediações da feira livre da Roosevelt. O sol batia forte na minha cabeça e meu coração seguia em frente depois de uma noite mexicana num boteco suspeito da Treze de Maio. Uma partida de bilhar, alguns vagabundos que não abandonariam por nada aquilo que eles consideravam como lar e uma música do Black Sabbath que eu tinha escolhido na jukebox. Era essa a ilustração da noite, tava de bom tamanho, eu tava no meu habitat. Duas mulheres fim de linha, na faixa dos quarenta, tentavam me arrastar pro banheiro. Eu relutava, elas que colassem o velcro e me deixassem em paz. A mais velha me chamava de gostoso, insistia em apertar minhas bolas por baixo da mesa. Era brochante quando se dirigia a mim me chamando de neném e insistindo pra eu mostrar o pipi. Mais brochante que isso só a abordagem das putas da Praça do Correio em plena luz do dia, onde nenhum office boy passa incólume. Eu desejava voltar imediatamente pro útero materno e ser abortado a tempo. Das duas, Marcinha 66 tava menos avariada pelo tempo. E por causa da minha nostalgia, Cedi. Derrapei na curva do rio e caí na boca dela. Quando dei por mim tava dando meu RG de garantia no Hotel Jacaré. A pior das sensações musicais do momento invadia aquele quarto escroto habitado por baratas subnutridas. Aquela loura oxigenada sugava meu escroto sem a reação que ela desejava da minha parte. Eu não podia fazer nada, a parte de álcool que me cabia tinha evaporado, seu layout já não me agradava como outrora. Era hora de debandar, a realidade até pode ser crua, mas nem sempre somos obrigados a compactuar com ela.
Escrito por Blue Velvet às 13h47
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