Patty, A menina do pedaço Patty tinha escutado em algum lugar a expressão “vazio existencial”. E era isso que ela repetia a todo momento, diante de algumas pessoas supostamente cultas . Patty fazia caras e bocas de maneira que parecesse a menina mais descolada do pedaço. Tava cansada dos playboys, tava afins de conhecer gente nova. Então o negócio era recorrer a algum livro do tipo: “Como fazer amigos cultos” , ou então “Como parecer importante mesmo sendo apenas um idiota”, com o subtítulo de o “Manual da Farsa”. Bem, em algum livro desse naipe ela aprendeu o truque da caneta, andava sempre com uma na mão e gesticulava de forma estudada. Também descolou um óculos moderno de aro grosso. Tava pronta, agora era freqüentar vernissages de artistas plásticos, lançamentos de livros e estréias e pré estréias de teatro e cinema. Era chegar e mandar um copo de vodka cara, mandar goela abaixo pra impressionar. Em pouco tempo, devido ao seu comportamento estudado e a certos dotes físicos, Patty passou a ser convidada formalmente pra freqüentar todas as badalações artísticas. Virou figura fácil na roda. Lia orelhas de livros, começou escutar Los Hermanos e usar camisetas do Che Chevara. Até o nome do Nietzche ela aprendeu a pronunciar. Tinha boa vocação pra orelhada e logo aprendeu os clichês básicos de uma culturete. Seu único defeito era se vestir de maneira discreta, mas logo foi alertada por um dos artistas da roda. Foi aconselhada a se vestir de maneira mais adequada naquelas ocasiões, e a sugestão foi que a menina vestisse uma mini saia rodada e xadrez, salto alto e meia arrastão. Se ela se vestisse assim, provavelmente receberia mais atenção da rapaziada e talvez não precisasse exagerar tanto nas orelhas de livros. Afinal de contas, ninguém estava muito interessado nas suas opiniões a respeito disso e daquilo. Logo as sugestões se proliferaram, dessa vez ela foi dada por um músico experiente em groupies. A nova sugestão era pra que ela facilitasse um pouco mais pra rapaziada. No dia seguinte, esforçada em aumentar suas possibilidades sociais e acreditando em histórias de glamour e fama, pensou seriamente na possibilidade de atuar na tv. Se era pra facilitar, queria alguma coisa a mais em troca. Ela acreditava ter todos os requisitos pra fazer sucesso na TV e se isso não desse certo, a saída seria alguma produtora de vídeos pornográficos. Se facilitar era lei, então porque não ir um pouco adiante e profissionalizar a coisa. Em duas semanas a menina tinha transado com uns quinze marmanjos diferentes. Sempre um de cada vez, é claro. Mas ainda era pouco, o mesmo especialista em groupies que fez a recomendação pra que ela facilitasse, sugeriu a menina mais uma coisa, apenas um complemento, ele sugeriu que ela deveria topar uma transa com dois ou três de uma vez. E que isso sim faria a diferença. Que suruba era tão natural naquele meio como é natural um católico casar na igreja. No dia seguinte ela tava lá, travada no meio de três picas. Aquilo não estava nos manuais de como fazer amigos ou conquistar pessoas. Depois disso, os convites triplicaram. E graças a seus contatos e a boa vontade dos que se beneficiaram de seus dotes, logo se interessaram pelo seu trabalho. Patty finalmente descolou um trampo pra se exibir numa feira de automóveis, depois chegou a ser Miss Mexirica durante três anos consecutivos numa cidade do oeste paulista. A última notícia a respeito dessa moça bem dotada, foi sobre sua discreta atuação como figurante num filme pornô. Talvez a novela das oito conte com sua presença algum dia, talvez seja só uma questão de tempo.
Escrito por Blue Velvet às 16h46
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